Pontuação

 


Observo-lhes a pele tisnada, da cor da canela, e os dois grandes pares de olhos a olhar-nos curiosos. Ele, talvez 8 anos, parece um ponto de interrogação. Curvado e retorcido pela poliomielite, apoiado a custo por debaixo do braço por uma bengala forrada com esponja e restos de sacos de plástico. Ela, talvez um pouco mais nova, cara ladina, cabelo curto e esguia como só se pode ser quando há mais fome que comida, parece um ponto de exclamação.


Os lábios mexem, mas não consigo ouvir o que dizem no meio da cacofonia de buzinas e pregões da rua e, no entanto, sei bem o que pedem. E abano a cabeça a dizer que não, cumprindo a regra sacramental do viajante experiente: nunca dar esmolas. E repito mentalmente como um mantra: dar esmolas, especialmente a crianças, perpetua o ciclo de pobreza impedindo que alguma vez venham a estudar ou a ser independentes. Não se dá esmolas. Nunca.


Aperto contra o corpo o meu querubim. Rechonchudo, rosado e luzidio de quem tem mais comida que fome. Vestido de branco imaculado no meio da negrura da sujidade da estação de comboios de Agra. Reparo que os olhos deles não estão afinal pousados em nós mas sim nele. Na brancura alva, no ponto de luz no meio da escuridão.


Sinto o incómodo colado na pele, mas repito o mantra e convenço-me que afinal o incómodo é dos 40° graus que já se fazem sentir às 10 da manhã. Precisamos de um táxi, rápido, ouço-me dizer. Temos muitas coisas para ver e pouco tempo, disfarço. E está muito calor. Já tinha dito que está calor, não já?


Entro no táxi com o querubim encostado ao peito. Olho pelo espelho retrovisor e vejo-os com as rupias nas mãos e o olhar agora vazio, já sem a luz na escuridão. Sinto a dor fininha da culpa de quem sabe que fez o mal fazendo o bem e passo o resto do dia a sorrir para as fotos com o Taj Mahal ao fundo e a levar bofetadas na alma do ponto de interrogação e do ponto de exclamação. Perdão, do calor. Já vos disse que estavam mais de 40° não já?

 

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