Leshan e Bob




O que estás a comer?  Levanto os olhos dos noodles com vegetais preparada para rosnar e encontro um senhor que aparenta setenta anos a olhar-me com um sorriso maior do que a cara.

Já tinha visto o Bob no hostel. Falava com toda a gente e circulava como se já lá estivesse hospedado há um mês. Mas não estava. Na verdade tinha chegado apenas há uns dias e já partilhava cervejas e histórias com viajantes com idade para serem filhos ou netos dele. Chegava ao pé de uns e perguntava o que tinham visitado, ao pé de outros e elogiava a t-shirt… tudo com um à vontade desconcertante.

Quando o conheci tinha 68 anos de idade e viajava ininterruptamente há 6 anos. Viajava tão devagar, mas tão devagar, que as viagens demoravam mais que o envelhecer. Não tinha Instagram e os destinos não eram escolhidos pelo que ia ficar bem no feed mas no que lhe ia assentar bem na alma. Num mundo cheio de filtros e algoritmos o Bob escolhia a imperfeição dos dias reais.

Pede-me para eu me sentar. E eu sento-me com as mãos cruzadas no colo, como faço sempre que sei que vem aí uma boa história. E a do Bob não desilude. Até há 6 anos nunca tinha saído do seu país natal, os EUA. E agora ali estava ele com uma cerveja gelada à frente, mais de 50 carimbos no passaporte e sem intenções de deixar páginas vazias. Uma vez por ano voltava a Nova Iorque, por duas ou três semanas, para visitar os três filhos mas rapidamente se cansava da inércia da vida sedentária, que em tempos lhe tinha sido tão confortável como um pijama de flanela, e voltava à incerteza da estrada. O Bob tinha tido um cargo importante na Proteção Civil de Nova Iorque e um papel de relevo no 11 de Setembro e nos planos de reconstrução da Freedom Tower. Uma daquelas profissões em que se fala com a voz grossa e se gesticula muito com as mãos. O reconhecimento do seu trabalho veio na forma de uma medalha ao peito, de uma reforma mais composta e na concretização do sonho, que só soube que tinha quando deixou de trabalhar: conhecer o mundo.






Estávamos em Leshan, na China. A cidade onde repousa a maior estátua de Buda do mundo. São 71 metros de pedra talhada em forma de Buda sentado, esculpidos com o único propósito de acalmar as águas dos rios Minjiang, Dadu e Qingyi, rios que jazem ao pés da estátua e que à data da do início da sua construção, no ano 713, provocavam muitos naufrágios tal a turbulência das águas. E a verdade é que resultou. Mas dizem as más-línguas que tal sucedeu porque foi retirada tanta pedra da montanha em frente para a construção da estátua que alterou o leito do rio e as águas ficaram calmas. Mas não liguem a esses boatos… é gente de pouca fé.





E porque é que vos conto isto? Porque todas as histórias começam e terminam com uma viagem, mesmo que não haja viagem nenhuma na história. Todas. Porque Leshan vale mesmo uma visita e porque soube que o Bob tem um novo carimbo no passaporte da vida. O último.

“Life has a very simple plot. First you’re here and then you’re not” Eric Idle.


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